Após o passeio sobre as águas, o asfalto se transforma em rio de gente, roncos e orações

Neste sábado a cidade, de fato, se pintou com as cores do Círio de Nazaré. Saindo de Icoaraci, a Romaria Fluvial levou centenas de barcos à Baía do Guajará, que se transformou em uma passarela cor de barro, um tapete das águas que recebeu a Imagem símbolo de todo este frenesi. Perto do meio-dia, após as honras de Estado, na Avenida Presidente Vargas, ponto crítico do trânsito no centro da Capital, a Moto-romaria abriu passagem às flores e ao inominável que tem nome: é CÍRIO! 
Texto e fotos: Gustavo Ferreira
O trânsito ainda segue na Av. Presidente Vargas, minutos antes da passagem da berlinda. O Motorista deste ônibus deve agradecer até agora pela oportunidade única de singrar uma das avenidas mais movimentadas de Belém… Vazia. Valei-me Nossa Senhora!
Privilegiados moradores do Residencial Oscar Barra, na Presidente Vargas. A Santinha dá o ar de suas graças todo o ano, e embelezam uma paisagem típica desta “selva de pedra” chamada Belém, a Metrópole da Amazônia.
A escolta de milhares de motoqueiros, orgulhosos, traz o povo para perto e abre o túnel de mangueiras para Ela, que desponta no fim do horizonte humano. Uma onda que lava as almas e enxuga palavras. As bocas se calam, dão lugar aos corações. 
Eis que surge, imponente, a berlinda, sua redoma. Os olhos, mareados, incontidos, levados, não enxergam nada mais além do brilho de Maria. Ela chegou, está de volta à terra, terra banhada por orações e esperanças. Terra castigada pelo tempo, pelos erros, pelo descaso. Terra abençoada, rio aberto no meio do concreto. Vem, Nazinha! Vem!
A contemplação dos roncos e das rodas, que se entrelaçam, formando a caravana pela fé rumo à Nazaré. A berlinda passa, mas a multidão em duas, milhares de rodas, parece não acabar. Um infinito sentimento de satisfação e servidão, um eterno ciclo de devoção que se repete. A vida gira, gira, gira… E volta à Belém, no mês de outubro.
Preto, branco, amarelo, vermelho. Os preconceitos baratos ficam de lado, todos são um, todas as cores montam a aquarela que reflete nas casas, nos olhos e nos sorrisos de quem está ali para pedir e agradecer. Mais do que uma unidade efêmera, o mundo pede para que todos os dias, em todos os lugares, haja respeito. Respeito, para que todos defendam a sua cor, sem medo, com orgulho.
Homenagem do Banpará, uma das mais tradicionais da procissão. Talvez um pedido de perdão, talvez um pedido de redenção, talvez um pedido de desculpas ao povo. Envolvida em um dos maiores escândalos políticos do Estado, a instituição estampa a devoção de seus funcionários – em greve.
E quem disse que acabou? Meia hora depois da passagem da berlinda, enquanto a Imagem era recepcionada no Colégio Gentil Bittencourt, assim estava a subida da Avenida Presidente Vargas. Um mar de gente que sobe, desafiando as leis da física e do cansaço. Os carros já voltam – ou tentam voltar – lentamente ao seu rumo. As pessoas, muitas pessoas, ainda não deixam. A dispersão é lenta.
Apenas o começo… Belém, tão suja quanto devota, e suas sarjetas lotadas de lixo e descaso. Um espelho macro do que chamamos de “é sempre assim”. As procissões maiores ainda virão, mais lixo virá, o asfalto vai sumir sob a pele de papel molhado, suor e restos. Ironicamente, também são lembranças e vestígios de que Nossa Senhora de Nazaré passou por aqui. 
Presidente Vargas quase vaga, o povo já passou, ainda passa, mas o asfalto respira e se prepara. Daqui a pouco tem mais, e o mar de gente voltará a correr sobre o negro chão. Daqui a pouco tem Trasladação.
O profano. Círio não é abstinência, muito menos imposição de valores e comportamentos. Após a santa romaria, volta o refresco popular, como se fosse um dia comum de sol na capital tropical amazônida. 
Em volta do imponente prédio da CDP, uma linda representação do Círio. Um grande painel, certamente pano de fundo para diversas fotos nestes dias. A mangueira frondosa, os promesseiros, os sorrisos e as vivas cores da fé. E, no meio disto tudo, um aprendiz de jornalista… Como não se identificar? 
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