Plebiscito divide opiniões… Que opiniões?

4,8 milhões de eleitores votam para divisão ou não do Pará em três estados, neste domingo (11), após campanhas de (des)informação.


Gustavo Ferreira




55 ou 77? Neste domingo, o Brasil vive um momento histórico. Pela primeira vez, uma nova disposição territorial é sujeita ao julgamento popular nas urnas. Quase cinco milhões de eleitores paraenses estão decidindo se apóiam a criação de Carajás e Tapajós. Nas seções eleitorais, o que se vê é o reflexo natural de uma falha grave de toda a campanha do Sim e do Não: o vazio nas filas é conseqüência do vazio de propostas.
Nos debates, uma chuva de ofensas pessoais e tatibitates de políticos mais preocupados em defender suas posições de postulantes a cargos públicos, do que em mostrar ao povo o quanto seria bom dividir. Nos programas na TV, um show de apelos sentimentalóides, com mensagens clichês, do tipo “quero meu Pará grande”, “Belém, não feche os olhos pra esse povo, não”, etc. Dados contraditórios, repetitivos, confundindo mais do que explicando.
Ricardo Lewandowski, presidente do TSE, checando o andamento “tranquilo” do plebiscito, em Belém
(Foto: Gabriela Gasparin/G1)
SIM: UM TAPA NA PRÓPRIA CARA Os “separatistas” alegam algo flagrante em estados gigantescos territorialmente: o descaso do poder público com eles. Ora, o próprio Brasil é uma versão macro do Pará atual, em termos de controle federativo. Muitos dos municípios do Baixo Amazonas, da região do Xingu e de Carajás não recebem o tratamento devido do Governo Estadual. Estradas de terra, cidades que vivem da lama ao caos.
Separatistas em crise nao conseguem mobilizar a cidade de Santarém.Plebiscito acontece no domingo
Campanha do Sim em Santarém, possível capital do novo Tapajós
(Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
Ótimo motivo pra votar Sim. Entretanto, Duda Mendonça e seus blue caps conseguiram transformar uma proposta potencialmente forte e consistente em entretenimento, às vezes grosseiro. Tapas na cara chocaram, como a Transamazônica. Desnecessário. Nasceriam três estados pobres. O FPE (Fundo de Participação dos Estados), grana que a União destina a cada UF, não seria multiplicada. Onde já se viu? Seria repartida, como o próprio território. Não seria “bom pra todos”, como estampou a campanha.
Outro detalhe: o Pará remanescente, 17% do atual, teria “quase o tamanho da cidade de São Paulo, a mais desenvolvida da América Latina…”, e “quatro vezes maior do que o Rio de Janeiro…”. Ora, Qual a relação direta de desenvolvimento econômico e social que se pode fazer entre o “Parazinho” e São Paulo? Tamanho é documento? Olhem pra Roraima, Piauí, Tocantins.

NÃO: MUITO CHORO, POUCAS SOLUÇÕES O pessoal do Não defendem um estado unido, o Pará grande. O mesmo Pará grande que fechou os olhos, e fecha até hoje, para os povos de além-rio. Simão Jatene, governador-espectador no pleito, afirmou ao site da FOLHA, que “as pessoas não estão querendo um Estado A, B ou C. O que elas querem é mais saneamento, mais educação, mais saúde, e isso é uma demanda legítima”. Seria isso um atestado de incompetência de sua própria gestão?
Cangurus da Radiolux, figuras míticas da cultura belenense, defendendo o
Pará unido (Foto: Manuel Dutra)

Não apareceram propostas efetivas de assistência aos territórios separatistas, e ao que parece, não aparecerão. Ficará tudo como está. Embebidos pelo “já ganhou” (já que a imensa maioria dos eleitores fica na zona do Não), os contrários à divisão transformaram o plebiscito numa novela de Manoel Carlos. Lágrimas, depoimentos que apelaram ao coração e discursos vazios de soluções. O não pelo não.
Criticam a falta de identificação dos “separatistas” com o Pará. Mas, me digam com sinceridade: qual é a ligação que o gaúcho que vive em Marabá tem com a “cultura paraense”? Entre aspas, porque, talvez, esse hibridismo seja a atual cultura paraense. Não há cultura pura. Historicamente, Belém é uma capital marcada pela soberba e pelo egoísmo étnico, sem nunca olhar para o interior. Consequência? Os migrantes chegaram, chegaram… Adianta reclamar de falta de identidade agora?
NO FIM… O resultado do plebiscito, seja Sim, seja Não, está fadado ao nada. No que depender das falácias das lideranças envolvidas neste pleito, pouca coisa mudaria, efetivamente. Um latifúndio viraria três, três coronéis, três pobrezas, três elites. Se não dividir, quem garante melhorias na vida dos moradores de Carajás, do Xingu e do Tapajós? Infelizmente, os anseios da população se tornaram, mais uma vez, plano de fundo para marketing pessoal e campanhas para prefeituras no ano que vem.
Questões ambientais, tributárias, infra-estruturais e de representação política ficaram de fora do show.  Ao invés de informar, as frentes confundiram, desinformaram. Pobres de nós, eleitores, que mal sabemos por que estamos indo ás urnas, neste domingo histórico. Viva o “poder” do povo!
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