Sobre o fim da MTV Brasil

Em outubro, a emissora inicia uma nova fase, apenas na TV por assinatura.


Nessa madrugada, coisa de uma ou duas horas da manhã, eu estava zapeando na TV, procurando algo interessante pra ver, o que é bem difícil nessas horas. De repente, parei em um canal onde estava passando um videoclipe. Alguns minutos depois, algumas fichas começaram a cair.
Aquele canal era a MTV Brasil. E aquele momento era mais do que uma noite insone. Era uma volta no tempo, a um tempo em que as coisas tinham outras dimensões, outros sentidos. Tempo de passagem, de descobertas e boas novidades. A música, por exemplo.
São da MTV as primeiras lembranças musicais da minha vida, em áudio e vídeo. Lá eu conheci alguns sons sinônimos de momentos marcantes. Na MTV eu vi que música tem cara, cenários, tempo e créditos. Na MTV eu conheci os anos 80, que eu não vivi. Pela MTV, eu viajei nos anos 90 e 2000. Por causa da MTV, eu aprendi a depender de uma estante de CDs, de um fone de ouvido, de mp3. Aprendi a depender de música. Graças a Deus.
Foi lá que eu percebi que o Brasil não era só samba, pagode e axé. Paralamas, Marisa Monte, Engenheiros, Skank, Titãs, Charlie Brown Jr, Raimundos, Caetano, Daniela Mercury, Sandy e Junior, Supla, D2, Ira!, Emicida, NX Zero, CPM 22, Fresno, Pitty, é tudo MPB – até mesmo samba, pagode e axé.
E na MTV eu também cantei o que nem entendia. Nirvana, Pearl Jam, Green Day, Avril Lavigne, Foo Fighters, Evanescence, Eminem, Groove Armada, Outkast, Lauryn Hill, incubus, Muse, Fall Out Boy, Bowie, Michal, R.E.M., A-Ha, Silverchair, Smashing Pumpkins, Metallica, Guns, Coldplay.

O tempo passou desde o primeiro Disk, o primeiro Piores Clipes, o primeiro Supernova, o primeiro Rockgol, a primeira Casa da Praia, o primeiro Acústico, o primeiro Ao Vivo, o primeiro VMB. A MTV sempre foi uma vitrine da juventude, dos nossos gostos e tendências, e de como a gente passou a se relacionar com o mundo e com nós mesmos. Essas relações fizeram algumas coisas perderem parte do sentido e, assim, de sua função.
Hoje, nenhum “jovem MTV” espera dar seis da tarde no 25 para ver se o seu clipe preferido ficou entre os 10 mais votados do dia – por telefone. Nem vai torcer pra que esse clipe esteja no Central, ou que passe alguma reprise. Está tudo na TV, a um ou dois cliques, tudo em alta definição, até com mais detalhes do que antes. Há outros meios, há outras opções. A MTV deixou de ser a única fonte. A modernidade engoliu a tradição.
A MTV Brasil não conseguiu resistir à explosão da internet, mesmo tentando fazer parte dela. Concorrentes surgiram na TV e fora dela, os patrocinadores perceberam e se espalharam para lugares mais lucrativos, e a audiência se dispersou. Várias fórmulas foram testadas para manter a MTV como antes, em um tempo que nunca mais vai voltar. A Music Television foi perdendo se tornando cada vez menos a TV da música.
Na semana passada, os boatos se tornaram verdade.  A Viacom International anunciou que retomará o controle da marca, que era do Grupo Abril desde sua estreia no país, em outubro de 1990. A partir de 1º de outubro deste ano, a MTV será um canal pago, e terá 350 horas de programação local, com realities e shows, além de enlatados americanos dublados.
É um recomeço, sim. Novos tempos, novo público, nova fase. Mas é, sim, o fim da MTV Brasil. Fim daquela MTV que nos prendia em frente à televisão, daquela MTV que mostrou a mim e a tantos outros jovens de 20 e poucos anos que a vida podia ser mais divertida, menos clichê, sem tantos tabus. A MTV que vai (re)nascer no próximo 1º de outubro vem com outros desafios, vem mostrar novas apostas,vem para dar mais cara e voz para o público de hoje.
Deu saudade, e vai dar sempre que eu assistir videoclipes na madrugada. Um sentimento seguro de que alguns dos anos mais contentes da minha vida eu traduzo em videoclipes. É o fim da MTV Brasil, mas vem outra por aí, para continuar fazendo dessas três letras a escolha da audiência.

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