Sobre Toledo, Madrid e Velázquez

No período do inverno europeu, o dia em Salamanca começa a dar o ar de sua graça por volta das oito ou nove da manhã e se vai pontualmente às 18 horas. O que isso significa? Bom, para mim significa que acordar antes das oito é madrugar, principalmente aos sábados. Mas, naqueles dias 11 e 12 de janeiro, fizemos questão de acordar cedo e encarar o frio para conhecer duas das cidades mais charmosas da Espanha e que já carregaram – uma ainda carrega – o título de capital do reino de Castilla e León. Foi assim que começou o nosso passeio por Toledo e Madrid.

Entrada de Toledo. (Foto: Thaís Siqueira)


Para começar, Toledo é uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Para entrar na cidade, é necessário atravessar a porta e a grande ponte de pedra (em Madrid há uma porta similar chamada Puerta de Toledo). Os prédios de pedra e o rio que corta a entrada tornam o lugar ainda mais mágico. Há muitas ladeiras na cidade, o que dificulta a caminhada, mas nada que atrapalhe muito.

Paisagens da entrada de Toledo. (Fotos: Thaís Siqueira)
Nossa imersão na história da cidade começou com a visita à San Juan de Los Reyes, igreja construída por volta do século XIX. Chamou a minha atenção a escultura de um homem no centro do teto atrás das cadeiras, pois obviamente eu e todos ali acreditávamos que se tratava do rei ou de alguma figura ilustre, mas era a escultura do arquiteto que construiu a igreja, o qual fez questão de deixar sua marca – ou imagem – na obra. Achei digno.

Em Toledo é muito fácil perceber a influência islâmica, basta conhecer as belíssimas sinagogas construídas e mantidas até hoje na cidade. Também é o lugar que acolheu Dominico Theotocopvli, mais conhecido como El Greco, autor da obra El entierro del Conde de Orgaz. A grande catedral da cidade é mais um motivo que levou Toledo a ser reconhecida como patrimônio da humanidade, possui uma grandeza difícil de descrever e é considerada a igreja mais imponente da Espanha.

Monumento em homenagem a El Greco. (Foto: Thaís Siqueira)

Detalhes das janelas de uma sinagoga
e da Catedral de Toledo. (Fotos: Thaís Siqueira)
Depois de conhecer Toledo fomos a Madrid. Como era de se esperar, a grande capital fervilha de gente, sons, manifestações culturais e os mais diferentes tipos de pessoas. E é justamente sobre elas que quero falar. Quem já viajou para outros países mais “desenvolvidos” que o Brasil sabe que as pessoas não são muito receptivas. Em geral, a maioria dos europeus, por exemplo, não gosta muito de turistas. Portanto, se você for ao exterior, pedir uma informação de forma bastante educada e lhe tratarem mal, releve. Não é nada pessoal com você, só com a sua nacionalidade ou com qualquer coisa maior do que isso. Mas, para a nossa alegria, há pessoas maravilhosas espalhadas por aí e é com elas que a gente conta quando se perde em uma cidade como Madrid.

Em Madrid se pode encontrar pessoas de diferentes lugares, o que transforma a cidade
em centro de manifestações culturais diversas. (Foto: Thaís Siqueira)

Já chegamos lá nos perdendo desde a rodoviária até achar o metrô, e nos perdermos de novo porque pegamos a linha errada. Lá, pedimos informações a um senhor e, vendo que não estávamos entendendo as instruções, saiu do seu caminho e nos levou ao ponto certo. Graças a ele, chegamos ao centro. Beleza, e agora? Compramos um bilhete para o ônibus de turismo que passa pelos pontos principais de Madrid, mas não sabíamos onde encontrar esse bendito ônibus. 

Foi quando encontramos um casal que, pacientemente, olhou o GPS, o panfleto, o bilhete, ligou para a empresa, nos emprestou o celular para ligarmos para os nossos amigos que também estavam pela cidade e ainda tentaram falar português – e conseguiram, porque são da região da Galícia, com forte influência portuguesa, segundo eles. Nunca vou esquecer aquele senhor nos fazendo um favor e ainda nos dizendo “oubrigadou”. Nós que agradecemos, querido!

Por fim, achamos o ônibus e fomos curtir nosso passeio. Destaque também para a moça que recolhe os bilhetes durante o passeio, que nos explicou tudo com uma paciência de Jó.

Queria encerrar contando sobre o que me levou a Madrid. Já tem algum tempo que comecei a me encantar pelas obras de Diego Velázquez, principalmente Las Meninas. Não vou me estender contando a história do quadro. Em resumo, a minha vontade era estar ali e encarar Velázquez (para quem não sabe, além de retratar a família de Filipe IV, ele faz um autorretrato no qual aparece fixando os olhos no seu observador). Dessa forma, ao mesmo tempo em que podemos contemplar a pintura, também temos a impressão de que estamos sendo pintados por ele.

Fui ao Museu do Prado pouco antes de encerrarem as visitas, por isso me apressei e quase corri para achar a famigerada sala 12. Nunca vou esquecer a sensação que tive quando entrei na sala e me deparei com a obra. Primeiro guardei na memória a imagem dela cercada de pessoas, até crianças, que a observavam. Depois cheguei mais perto e deixei que Velázquez me encarasse e que minha imagem refletisse no espelho. Após vários minutos olhando cada detalhe, cheguei à conclusão de que uma das amas da infanta Margarida não é uma criança e sim uma anã. Enfim, consegui ver isso de perto e vou contar aos meus netos. 

Quem sabe um dia volte com eles naquele museu. Nessa noite fui dormir com a alma leve e com muitas lições aprendidas. Não é que os sonhos se realizam mesmo, maninho?

Foto: Acervo Pessoal.
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