Payxão alvi-azul


Pedrox, bicolor desde os tempos de escola.
(Foto: Acervo Pessoal)
Não sei bem ao certo, mas em algum momento na década de 80 me descobri torcedor do Paysandu. Minha memória mais antiga me remete a um dia ordinário de aula na escola em que a professora perguntou aos alunos, um por um, para qual times nós torcíamos. Lembro dos meus colegas se revezando entre gritos de “Leão” e “Papão”, intercalados por um ou outro que se dizia torcedor da Tuna Luso. Quando chegou minha vez, enchi o peito e falei: Paysandu. Na época eu devia ter menos de 10 anos e achava que Papão e Paysandu eram times diferentes. Todos da classe perceberam a ingenuidade e riram da minha confusão. Eu já sabia que nutria payxãopor aquela camisa listrada em azul e branco, mas foi só neste dia que aprendi o “apelido” do meu time do coração.

A raiz bicolor da minha família estava em meu avô Pedro, de quem herdei o nome e a payxão alvi-celeste. Ele se casou com minha vó Antonieta, que tinha predileção pelo clube rival. Os filhos do casal, meus tios, tornaram-se torcedores azulinos para agradar a vovó. As filhas, minha mãe e minhas tias, apegaram-se ao Paysandu por influência do meu avô. Eu segui a tendência, torcendo pelo time que minha mãe (e minhas tias) torcem, mas fui bem mais além graças a um vizinho remista que, de tão chato na época em que o clube dele estava vivendo uma fase melhor que o meu, acabou estimulando mais meu lado bicolor.
Renato era meu vizinho e um dos meus melhores amigos na infância. Muito magro, ele era a cara do Paulo Miklos e nosso assunto preferido era futebol. Ouvíamos rádio, assistíamos jogos na TV, comprávamos revistas de futebol e colecionávamos figurinhas de Campeonato Brasileiro e Copa do Mundo. Jogávamos futebol de rua, futebol de pátio, “travinha”, gol a gol, pebolim, futebol de botão e futebol no videogame. O cara frequentava estádio de futebol desde criança, na época em que o Mangueirão era “bandola”, e até história de apanhar da polícia ele tinha pra contar – e não era mentira, porque ele gravou em VHS o programa esportivo que mostrou a violência policial e fazia questão de exibir, orgulhoso, em câmera lenta, a cena em que ele apanhava. Ele era um cara muito bacana, mas torcíamos para clubes rivais.
Se em 1991 eu ainda era muito jovem para ter noção do que era ver o Paysandu campeão brasileiro da série B e perdi a oportunidade de tirar onda com o Renato, de 1992 a 1997 ele valorizou demais o tempo que o Remo ficou sem perder para o Papão da Curuzú. A cada jogo aumentava a alegria dele, era mais intensa a comemoração e eu tinha que ouvir calado ele falar do “tabu” que até hoje é celebrado como um título para eles – fizeram até camisa comemorativa. Eu sempre dizia que ia ter volta e que em breve o Paysandu teria algo bem maior do que invencibilidades em clássicos ou campeonatos estaduais para comemorar.
A primeira vez que fui a um estádio ver jogo do Paysandu foi em 2001, justamente no Baenão, contra a Tuna Luso, numa partida em que o atacante bicolor vestiu o a estátua do Leão com a camisa do Papão. Naquele ano fomos bi-campeões brasileiros da série B. No ano seguinte levamos o tri do campeonato paraense, vencemos a Copa Norte e abiscoitamos de forma inesquecível a Copa dos Campeões, conquistando uma vaga na Libertadores, onde fizemos uma campanha histórica e uma vitória épica sobre o Boca Juniors em La Bombonera. Infelizmente já havia perdido contato com aquele Renato e não tive a oportunidade de tirar onda com ele.
É possível que meu amigo Renato estivesse no Mangueirão quando um ex-jogador do Paysandu chegou de helicóptero com a camisa para o torcedor do Remo lembrar do tempo em que não perdia para o Paysandu. É possível que ele realmente ainda ache que lembrar daquelas vitórias seja tão importante para nós como foi para eles. É possível que ele realmente ache que vitórias (ou não derrotas) sejam mais importantes que grandes títulos e projeção internacional. Se eu pudesse reencontrar meu amigo, diria para ele que viveria todos os anos do tabu novamente, aceitaria meu time novamente 33 jogos sem ganhar do dele se eu pudesse reviver os anos, as conquistas e os feitos do Paysandu. Ser o maior campeão paraense, ser duas vezes campeão da série B, ter vencido a Copa Norte e a Copa dos Campeões, ter disputado uma Libertadores da América, enfim…

Feliz Aniversário, Paysandu. E muito obrigado por todas as lembranças boas e ruins que você me trouxe nesta vida e por fazer do branco das nuvens e do azul do céu minha combinação favorita de cores, minha alegria de quartas e domingos e meu orgulho de ser paraense. Parabéns pelos 100 anos de muita história, pelo um terço deles que vivi em meus 33 anos de vida, e que os próximos 100 sejam de prosperidade e alegria!
PEDROX, 33. Jornalista, professor e bicolor.

Releia todas as crônicas apayxonadas da série 100 Anos Bicolores aqui.
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