Cortinas abertas para a criatividade

No Dia Mundial do Teatro, o Repórter E mostra dois grupos que mantém viva a arte em Belém, superando desafios e produzindo sempre

Gustavo Ferreira

Dirigível Coletivo de Teatro. (Fotos: Divulgação / Facebook)
Dirigível Coletivo de Teatro é um dos grupos que movimenta a cena teatral de Belém. (Fotos: Divulgação / Facebook)

Belém do Pará tem em seus pontos turísticos a materialização de sua história. Um desses cartões postais da cidade é a lembrança mais imponente de um dos períodos de maior prosperidade econômica da Amazônia, no final do século 19, por representar a eloquência que se foi com a borracha e nunca mais voltou. O Theatro da Paz, inaugurado em 1878, foi palco de grandes espetáculos durante a Belle Époque, e ainda hoje é símbolo de uma arte que acompanha a história da humanidade. Mas hoje, neste 27 de março, Dia Mundial do Teatro, o Repórter E vai se afastar dos teatros oficiais, como dizia Vicente Salles, um dos maiores nomes da cultura paraense (falecido em 2013), para ver onde essa arte está mais viva na Belém do século 21.

Ana Marceliano, do Coletivo Dirigível. (Foto: Acervo Pessoal / Facebook)

Um dos coletivos que mantém a cena teatral da capital pulsando é o Dirigível. Criado há quatro anos nos palcos e corredores da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), o grupo é formado por mais de uma dezena de profissionais de diversas áreas, como explica Ana Marceliano. Com 23 anos de idade e 16 de carreira, a atriz, dramaturga e diretora conta que, no Dirigível, o processo criativo envolve todos em diferentes funções:

“O pressuposto maior do grupo é a rotatividade de funções em cada processo. Isto é, a cada nova montagem uma pessoa diferente assume a direção geral, e tentamos ao máximo experimentar funções diferentes das quais já estamos habituados. Então na verdade o roteiro não interessa muito, porque é a loucura do outro que nos move”, diz Ana.

GALERIA | Veja fotos do Dirigível Coletivo de Teatro

E essa loucura do grupo, que já resultou em espetáculos apresentados até fora do Pará, fez nascer a Casa Dirigível, em 2013. O espaço, localizado no bairro da Campina, existe para abrigar projetos artísticos de quem quiser e tiver uma proposta interessante, de oficinas a hospedagem. “Além de receber propostas de ocupações dos espaços da casa, nós também produzimos muito lá dentro, este é nosso espaço de ensaio, onde criamos e fazemos a manutenção de nossas criações. Também é o lugar aonde almoçamos juntos ou tomamos o café da tarde enquanto planejamos as ações futuras”, destaca Ana, antes de se lembrar: “Ah, e é também a casa da Bolero, nossa gata malhada”.

Saiba onde fica a Casa Dirigível: Travessa Padre Prudêncio, 731, Campina.

Casa Dirigível, na Campina. (Foto: Reprodução / Facebook)

 

Varistagem

Além de criar espetáculos, outro grupo teatral de Belém também resolveu criar um verbo para simbolizar o ato de ir à cena e exercitar, sem muitos ensaios, o ofício do ator, com plena entrega. O verbo é varistar. Daí surgiu o nome do coletivo Os Varisteiros, em 2012.

Marcelo Andrade, do grupo Os Varisteiros. (Foto: Acervo Pessoal / Facebook)

A definição do nome foi de Marcelo Andrade. O ator, diretor e produtor cultural, além de integrante do grupo, também pensa que a rotatividade de funções e o trabalho coletivo são fundamentais para a formação profissional na área: “O processo de escolha das peças que serão montadas pelo grupo são escolhidos de forma coletiva, através de leitura prévia das dramaturgias (texto para teatro). Após a escolha do texto começamos com o trabalho de preparação de elenco. Os Varisteiros é um grupo onde os membros exercem várias funções, como direção, ator, figurinista, cenografia, etc. Pretendemos assim oportunizar a todos uma relação com outras funções artísticas dentro de uma montagem teatral”.

GALERIA | Veja fotos do grupo teatral Os Varisteiros

Por isso, Marcelo acredita que “a troca com o outro e o respeito pelas diferenças são qualidades primordiais nesta arte”. Aliar técnica e pesquisa, sempre em parceria, com o nas leituras em grupo, é um dos eixos da atuação da equipe, que já levou aos palcos paraenses 4 espetáculos ao longo de sua história, mesmo com tantos desafios a serem vencidos.

O que falta?

Dados do Ministério da Cultura (2010) indicam que o Norte tem o menor número de teatros em todo o país. São apenas 46, número expressivamente pequeno comparado ao índice do Sudeste (689). No Pará existem 16 palcos ativos, de acordo com a pesquisa, cerca de 33% do total da região.

Os números são desanimadores e revelam problemas do passado, ainda vivos, como diz Ana sobre a dificuldade de viver da arte do teatro em Belém: “Falta muita coisa, principalmente políticas públicas voltadas para o teatro. Falta conseguirmos levar o teatro às escolas, comunidades e periferias… A gente tenta, mas sem financiamento público ou privado é quase impossível. Falta também o esclarecimento de que a arte está diretamente ligada a outros serviços públicos como educação, saúde e segurança”.

Repórter E_Teatro Brasil

A integrante do Dirigível também afirma que o teatro é mais que divertimento. “Arte gera reflexão que gera transformação, soluções para a vida, para a cidade. Mas esse esclarecimento a gente consegue quando o teatro, as artes, chegam até o público, e pra isso acontecer voltamos ao problema-mor: é preciso financiar, pois nem só de vento vive o artista [risos]”.

Dinheiro não é o único obstáculo ao êxito da produção teatral paraense. Para Marcelo, falta público e, mais do que isso, estímulo ao público. “Um dos grandes desafios de fazer teatro em Belém é levar o público ao teatro, em uma cidade onde ir ao teatro não é um habito, diferente de outras capitais brasileiras, onde ir ao teatro é um habito incentivado desde criança. Belém ainda precisa avançar muito na divulgação de seus espetáculos. Acredito que este seja o maior desafio para os produtores culturais da cidade”, diz o membro do Os Varisteiros.

Arte que (trans)forma

Mesmo com tantas cortinas fechadas, o teatro paraense consegue espaços e luta para continuar sendo um agente transformador de vidas, como Ana acredita que é: “Metade do grupo é professor de teatro ou de dança. Escolhemos essa profissão porque acreditamos no papel fundamental da educação. Quem vivencia uma experiência de oficina de teatro, quase sempre concorda com o pressuposto: o teatro transforma! Acho que a aula de teatro é uma chance que a gente tem de ensaiar a vida”.

E toda boa formação vem da reflexão, e é isso que o teatro oferece a quem o vê e o faz, na opinião de Marcelo:

“O teatro é uma arte que possibilita tanto aos que realizam, como também aqueles que assistem um reflexão critica sobre sua realidade. Fazer e assistir teatro leva o individuo a conhecer a si mesmo, o outro e uma porção de realidades, o que seria impossível em sua vida cotidiana”.

Marcelo e Os Varisteiros estão em cartaz neste fim de semana, com o espetáculo “No Trono”. Ainda há sessões hoje e amanhã, sempre às 19h no Sesc Boulevard (Boulevard Castilhos França, 522), com entrada franca (Mais informações aqui). Ou seja, o teatro de Belém independe do grande Da Paz. O teatro de Belém está aí, em cartaz, pronto para ver e ser visto, como o próprio termo sugere.

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