Portal mostra a Belém que Belém não vê

A poucos dias do quarto centenário da cidade, portal Outros 400 quer abordar realidades historicamente marginalizadas, com debates e crítica

Gustavo Ferreira

Parte da equipe do Portal Outros 400. (Foto: Divulgação/Outros 400)
Parte da equipe do Portal Outros 400. (Foto: Divulgação/Outros 400)

BELÉM 400_Marca Oficial MenorToda vez que completamos uma nova idade é natural que surja uma série de reflexões sobre nossa vida, nosso corpo, o que estamos fazendo de nós mesmos. Ainda mais quando chegamos a uma idade avançada. Nesse caso, mais do que pensar sobre o que estamos fazendo conosco, olhamos para trás e repassamos o legado que deixamos, para tentar construir um futuro sempre melhor. Tudo isso vale para pessoas e para lugares, também. É o caso de Belém do Pará.

No próximo dia 12 de janeiro a cidade completa 400 anos desde a chegada da expedição portuguesa, liderada por Francisco Caldeira de Castelo Branco. E o que lembrar nesse momento? O que mostrar nesse momento? Refletir sobre o quê nesse momento? Essa foi a plataforma de voo de um grupo de 12 jovens comunicólogos da cidade, para que o aniversário de Belém não seja um motivo apenas de festa – comemorar o quê nesse momento? – e sim um espaço para visibilizar o que não se vê, pensar no que muitos não pensam, mobilizar para que a cidade se mova em direção a um futuro com mais a festejar. Juntos, esses jovens criaram o Portal Outros 400.

Lançado em novembro deste ano, o site é a concretização de uma visão crítica da sociedade que vem de antes de qualquer data comemorativa, vem do cotidiano, com explica Abílio Dantas, jornalista do portal: “Acredito que, para a maioria de nós, [a reflexão sobre os problemas do homem e da mulher na Amazônia] seja algo que faz parte de nosso imaginário desde a universidade ou antes, pois tem a ver com o desejo de transformação social típico de quem busca aprofundar-se de forma honesta na realidade da sua cidade, do seu país e de todo o mundo. O quarto centenário da cidade, no entanto, foi o estopim que faltava para que nosso discurso enquanto cidadãos e profissionais fosse mais amadurecido e direcionado para a questão que nos interessa de forma central neste momento: a Belém soterrada e esquecida pelos discursos oficiais”.

Pautas: olhares que provocam outros olhares

Alguns discursos não-oficiais que o portal mostrou em apenas um mês de vida na web são: a realidade da pichação na cidade, coletivos que existem para problematizar suas realidades sociais e buscar soluções, olhares da – não somente sobre a – periferia, a arte como reveladora de mazelas humanas e a crueldade da discriminação, seja racial, sexual ou de gênero.

Yasmin Uchôa, também jornalista, entrou na equipe pelo anseio de mostrar onde esteve a mulher nos primeiros 400 anos de Belém: “Quando tive contato com a proposta e aceitei o convite para ser integrante da equipe, logo pensei: preciso inserir conteúdos que falem sobre as mulheres,porque era uma coisa que eu estava vivendo pessoalmente, mas que me inquietava também como profissional”. Essa é uma característica do processo de seleção dos assuntos que estarão no Outros 400: as pautas nascem da observação da cidade. São olhares que buscam provocar outros olhares: “Não temos a pretensão de nos afirmarmos a verdade absoluta, mas sim de sempre mostrar um lado ou muitos lados a mais”, completa Yasmin.

Mais do que fugir de práticas engessadas da chamada “grande imprensa”, a ideia é desconstruir paradigmas. “Estamos falando apenas da função da imprensa, que queremos tomar para nós. Partindo desse pressuposto, observamos o comportamento do que se chama de “grande imprensa”. Essa grande imprensa manifesta posicionamentos racistas, machistas e, no geral, a versão de grandes empresas e de discursos voltados aos interesses dos grupos empresariais e políticos que controlam tais veículos. Partindo desse contexto, a função dessa nova rede de ações políticas – seja nas artes ou na imprensa – é trazer vozes destoantes que discutam uma cidade que vá além da visão unilateral dos mesmos veículos, das mesmas empresas, pessoas e famílias”, afirma Moisés Sarraf, jornalista do portal.

GALERIA | Veja alguns temas que foram pauta no Outros 400, em fotos

Moisés ainda destaca que “há um público cada vez mais crescente que não se interessa pelos antigos formatos dos jornalões e mesmo de seus sites. Um público mais exigente com relação às demandas sociais que ganham mais destaque, como a questão da mulher e do negro na sociedade”.

E esse público que lê também pode participar, em toda a Região Metropolitana de Belém: “Estamos produzindo para todos, desde o Guamá, Jurunas e Cidade Velha até os municípios de Ananindeua, Marituba e Santa Isabel. E convidamos nossos leitores a participarem, sugerindo, mostrando suas visões de mundo”.

Urubuservar

Para o lançamento do portal a equipe lançou uma espécie de personagem que representasse o anseio por ver Belém do alto e do chão. “Urubuservar” é uma espécie de gíria na cidade, e para o Outros 400 se transformou em verbo-chave. Quem explica melhor é João Cunha, jornalista do portal:

Urubuservando
Urubu, símbolo do Outros 400. (Arte: Divulgação/Outros 400)

“Urubuservar é estar atento aos movimentos da cidade com a consciência que o próprio olhar não basta para divisar as coisas do mundo e, por isso, é sempre preciso agregar outros pontos de vista, especialmente aqueles que não estão em evidência nas mídias pré-estabelecidas. O Urubuservando nasce como uma página para narrarmos a história de Belém e, então, se torna uma seção do portal”.

Além dessa seção, o Outros 400 traz um espaço para divulgar eventos relacionados ao aniversário da cidade, em especial manifestações que estejam afastadas do circuito comercial. Também existe o espaço para matérias especiais, sempre com o espírito crítico, que está assim apresentado nos Princípios Editoriais do site [para ver todos os princípios, CLIQUE AQUI]:

A cada frase publicada e a cada manchete redigida, vamos procurar a origem dos seus significados. Espírito crítico é desconstruir verdades tidas como absolutas em Belém e na Amazônia, contribuindo para a construção de uma comunicação como uma ferramenta para a emancipação social. (Outros 400)

Equipe: quem tece a rede

Moisés, Yasmin, Abílio, Fernanda, Gustavo, Okada, João, Kamilla, Kleyton, Marry, Rafael, Herôn. Doze pessoas unidas pela vontade de enxergar uma Belém diferente, cada um do seu jeito, trazendo suas vivências para tecer a rede que forma o projeto Outros 400.

Como diz Herôn Victor, publicitário do Outros 400, “Sempre buscamos pessoas que estejam minimamente alinhadas ao que estamos pensando: a construção de uma nova cidade. Daí, cada um vem de um bairro, uma região da cidade, com uma história de vida, e com um arcabouço profissional. Isso é importante. É assim, com histórias distintas, várias bagagens e vida profissional, criamos uma totalidade no portal. Entendemos que nossas intersecções criam o vínculo entre a gente e o portal, e nossas diferenças são essenciais para criarmos e produzirmos conteúdos relevantes.”

Os outros 400

No início dessa matéria ficou claro que a data 12 de janeiro de 2016 é apenas um marco simbólico, já que a reflexão sobre uma cidade melhor para todos deve ser uma prática cotidiana. Mas imaginemos que em poucas horas já estaremos no dia 13 de janeiro de 2016. Se esse dia for o início dos próximos 400 anos de Belém, o que você quer ver ao acordar? Como seriam esses outros 400?

Para Yasmin, “é ter uma população mais reativa, que se aproprie da cidade tanto na área cultural, quanto na social e política. Que tome consciência do quanto cada um é importante para a construção da cidade que todos nós queremos, que sabia onde começa seu dever e seu direito. Que entenda como cobrar melhorias, que deixe de ser somente espectadora de uma historia que é mastigada e colocada goela abaixo como sendo a certa há séculos. Tanto física quanto simbolicamente, gostaria de ver as grades que separam a Estação das Docas do Mercado do Ver-o-Peso sendo derrubadas”.

E para você? Como seriam seus outros 400 anos de Belém?

O Portal Outros 400 também está no Facebook e no Twitter.

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