Um ano de cultura Na Cuia

Revista cultural digital comemora primeiro aniversário de uma mistura que deu certo, entre juventude, criatividade e independência editorial.

Gustavo Ferreira

Revista Na Cuia completa um ano. (Arte: Repórter E)

A cuia é um instrumento tradicional na Amazônia, e dentre suas várias utilidades serve como uma espécie de prato onde se colocam o tacacá, o açaí e a farinha, que deixam qualquer um de bucho cheio por essas bandas. Podemos dizer que a cuia nos alimenta, e é nesse sentido que ela cabe perfeitamente como o nome de um projeto que faz um ano neste mês de janeiro. O alimento, neste caso, é a informação, o conhecimento, a cultura, tudo junto, misturado e oferecido aos amazônidas e ao mundo inteiro nas páginas dessa cuia, da revista Na Cuia.

Sim, uma revista. Digital, como a internet permite, mas uma revista. Não é à toa que esse projeto nasceu assim, e foi lançado em janeiro de 2015 por jovens estudantes de Comunicação Social da Universidade Federal do Pará (UFPA), como explica a editora-chefe, Juliana Araújo: “O jornalismo de revista é ligado à ascensão do jornalismo cultural, logo, é um formato que tradicionalmente permite explorar muitas imagens, ilustrações e textos mais longos. Sendo digital, a revista tem diversas possibilidades que ainda queremos explorar (como o uso de outras linguagens além da fotografia e do texto escrito)”.

A proposta da revista é mergulhar com responsabilidade e propriedade em temas que envolvem as apropriações culturais de espaços, de ideias, de movimentos artísticos e culturais pelo povo de Belém, por quem faz de fato a cultura existir: nós. E que lugar para fazer jornalismo cultural! A Na Cuia é uma revista de Belém, do Pará, da Amazônia, em todo o seu hibridismo, suas ações e contradições, e esse movimento é extremamente caro para a equipe de produção.

GALERIA | Veja quem faz a Na Cuia

Dar voz, rosto e ouvidos não apenas aos artistas já consagrados, mas (e especialmente) aos que não conseguem um lugar ao sol dos holofotes, nem uma vaguinha nos investimentos do poder público em cultura, e que encontram nessa cuia um espaço aberto. Mas preservar também é produzir, preservar e compartilhar também é arte para a Na Cuia. “Entendemos que não só os artistas fazem parte desse processo, mas que pessoas que se dedicaram à sua comunidade ou mantiveram um saber tradicional também fazem parte do cenário cultural paraense, mantendo hábitos que representam o Pará e que fazem os paraenses se reconhecerem como tais”, diz Madylene Barata, repórter da revista.

Nesse rio navega a Na Cuia, e nas dez edições publicadas até agora o barco já passeou por muitos temas. Carimbó, cultura de rua, teatro, o poder das mulheres, juventude criativa, o Círio de Nazaré… Para Juliana, duas edições em especial representaram os maiores desafios de toda a equipe nessa jornada de um ano: uma sobre a criação da Fundação Cultural do Pará (FCP), englobando os antigos Instituto de Artes do Pará (IAP), Fundação Curro Velho e Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (FCPTN, o famoso Centur); e a outra sobre consciência negra.

“A primeira foi muito trabalhosa, um tipo de jornalismo que não estávamos acostumados, que é investigativo e sobre um tema o qual muitas pessoas evitavam na época. O erro na parte do Pará Criativo (que foi explicado na edição seguinte) nos ajudou a pensar a apuração e duvidar de alguns dados que nos são cedidos. A segunda foi desafiadora no sentido do debate e da construção do conceito dela. Tivemos uma reunião com vários colaboradores e foi superconstrutiva, falando sobre empoderamento e os temas que eles abordaram. As duas experiências, apesar de trabalhosas, valeram a pena”, explicou Juliana.

Por falar em desafios, a Na Cuia é feita hoje por doze estudantes universitários, que ainda por cima são estagiários. Operacionalizar uma publicação como essa exige planejamento bem feito, força de vontade e “muito amor e convicção de que a Na Cuia é algo importante para todos nós”, completa a também repórter Vitória Mendes, que continua: “trabalhar em uma publicação mensal com todas as responsabilidades que isso implica faz com que a gente aprenda várias coisas que jamais aprenderíamos nos laboratórios da faculdade. A revista é uma escola para nós, que levamos muito a sério e que também é levada a sério pelos leitores”.

Aprender a ser criativo. Essa é uma máxima na redação (que não é necessariamente física, pode se constituir em um bate-papo na internet ou em encontros no shopping): “planejamos tudo o que fazemos muito lentamente e pensando nas limitações monetárias, de locomoção, de estrutura técnica, entre outras. É uma dificuldade contornável que exige muita criatividade”, destaca Juliana Araújo.

FRASE_Na Cuia 1 Ano

E já que os obstáculos para a produção de uma revista mensal são tantos, ainda mais para um grupo de meninos e meninas que nem conseguiram o diploma, deve ser complicado sequer pensar em se dedicar a outras ações, certo?

Bom…

Em um ano a Na Cuia também se envolveu na realização de dois eventos: a Kuyera, em março, para lançar a terceira edição da revista; e o Caldeirada, em setembro, um encontro sobre Comunicação em Cultura, em parceria com a Faculdade de Comunicação da UFPA e o blog Reduto CULT.

“Realizar esses eventos foram experiências maravilhosas que nos ajudaram a aproximar dos nossos leitores e conhecê-los fora das redes sociais, além de abrir espaço para artistas e iniciativas independentes, assim como nós, e isso é o mais importante”, conta Matheus Botelho, repórter e chefe de redação.

E vem mais por aí! 2016 chegou cheio de planos, sonhos e, logo em janeiro, uma edição especial com pessoas que contem com suas vivências os 400 anos de Belém, que serão completados no próximo dia 12. Além dessa experiência mais aprofundada em um jornalismo literário, os horizontes para este ano são bem maiores, de acordo com a Vitória: “O foco desse ano é conseguir formalizar a Na Cuia como microempresa para conseguir apoio financeiro de editais, fazendo com que nós possamos escrever matérias sobre cultura também no interior do Pará. A ideia de viajar pelo Estado fazendo o jornalismo que acreditamos é algo que deixa nossos olhinhos brilhando! Além disso, queremos nos profissionalizar mais enquanto repórteres, fotógrafas e editoras e firmar parcerias com outros coletivos e projetos com propostas como a nossa”. E quem vai dizer que não dá?

Para finalizar, ainda usando as palavras da Vitória: “Vai ser um ano e tanto pra gente!”. E 2016 está só começando…

A Na Cuia também está no Facebook, no Twitter e no Instagram.

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