Entrevista: Um café quentinho com Lívia Mendes

Cantora lança nesta semana o primeiro EP da carreira em show com parceiros especiais e uma trajetória musical que veio de casa

Gustavo Ferreira

Lívia Mendes DIVULGAÇÃO 02
Lívia Mendes, o folk da nova cena musical de Belém. (Foto: Iury Vicenzo)

29 anos. Muitos podem considerar uma indelicadeza revelar a idade de uma dama. No caso de Lívia Mendes, é importante dizer por que tempos ela viveu, até chegar ao que é hoje: uma das vozes mais promissoras da nova safra de Belém e do Estado. Nessas quase três décadas de vida, a professora de Espanhol ouviu com o avô as primeiras melodias de bolero, curtiu e muito a tsunami pop da transição do milênio, se encantou e se inspirou nas grandes vozes – femininas, em especial – da MPB, e atravessou estados para ganhar no folk music.

Ontem (14) ela lançou na internet seu primeiro EP, homônimo, com as cinco primeiras músicas de uma carreira que já está rodando na cidade [PARA OUVIR, BASTA DESCER ATÉ O FIM DO POST]. Depois de amanhã (17), com um show no Teatro Estação Gasômetro, Lívia marca um novo início, uma estreia oficial, no mundo da música. Digo oficial porque, como deu pra perceber, é nesse mundo que ela vive desde que nasceu, cantando versos alto e com a mão no coração, pra gente bailar, rodopiar e dançar… Com vocês, uma entrevista com a cantora Lívia Mendes.

REPÓRTER E: Como a música surgiu na tua vida? Quais são teus primeiros registros musicais, e como eles te levaram a essa carreira?

Acervo pessoal
Vô Gadelha, o início de tudo. (Foto: Acervo pessoal)

LÍVIA: Venho de uma família muito musical. Meu avô, o Vô Gadelha, era multi-instrumentista e deixou um legado pros filhos e netos, que sempre tiveram bandas. Minha memória musical começa ainda na infância com os sambas e boleros do vovô, passa pra pré-adolescência com o rock dos anos 90 das bandas que meus primos ouviam até a identificação, já maiorzinha, com o pop da época (Sandy & Junior, Rouge, Backstreet Boys, etc). Aos 14 anos ganhei de um primo um disco da Marisa Monte, que prometeu me ensinar violão se eu cantasse as músicas dela com ele, e assim nasceu o interesse imediato pela MPB e as grandes cantoras brasileiras. Esse mesmo primo me apresentou Rita Lee, Novos Baianos, Elis, Gal… Minha vontade de sair da música como algo familiar e levá-la pra vida começou nessa época. Tempos depois eu já tava com o violão em baixo do braço pra cima e pra baixo cantarolando e sendo sensação nas rodas de amigos. Hahaha

REPÓRTER E: Te conheci como professora de Espanhol, há uns anos atrás. Qual a participação da música no teu trabalho de docência?

LÍVIA: A música sempre fez parte do meu plano de aula. Fosse pra apresentar aos alunos os artistas e compositores latino-espanhóis ou pra deixar a aula mais dinâmica. Cheguei a compor canções pra conjugar verbos e deixar a gramática da língua espanhola, que é bem carregada, mais leve. Isso me fazia trabalhar com mais amor e uma sensação de cumprir bem o meu papel.

REPÓRTER E: Em que momento tu decidiste apostar pra valer na carreira musical?

LÍVIA: Foi quando reencontrei um amigo da adolescência, o hoje meu produtor musical Fabricinho Bastos. A gente frequentava uma galeria ali atrás do (então) Shopping Iguatemi, onde ele tinha um estúdio chamado “Toca dos Ratos”, e ele foi o primeiro a tocar comigo em festival de escola e tal. Quando nos reencontramos, já em 2014, ele me colocou pilha pra montar um trabalho autoral. Como eu já tinha várias composições, resolvi tirar da gaveta, fazer umas fotos e montar uma fanpage. Foi meio despretensioso – na verdade ainda é –, toda essa beleza que tem acontecido ainda não passava pela minha cabeça.

REPÓRTER E: Quais são as tuas principais inspirações musicais? Que bandas te ajudaram a construir o repertório do EP?

LÍVIA: Eu queria algo que soasse folk e pop ao mesmo tempo. Comecei a estudar a folk music americana, que antes era mais presente na minha vida por gosto pessoal, e a ouvir o que estava sendo feito agora. Então fui atrás da galera indie que vem fazendo um som assim: Mallu (Magalhães), Clarice (Falcão), Plutão Já Foi Planeta, Folk na Combi, AnaVitória, etc. Achei muita coisa legal, parti pra beber na fonte que eles beberam e fui cada vez mais décadas atrás. Até entender que fundir o pop e o folk era só respeitar a naturalidade como nasciam minhas canções, sempre marcadas pela sonoridade das cordas. Encasquetei que queria violinos e ukulele e o Fabricinho me ajudou a achar um meio termo na sonoridade, respeitando meu gosto e agregando os conceitos musicais.

REPÓRTER E: E na música local, da qual fazes parte agora, o que enxergas de mais interessante? 

LÍVIA: Acredito que o mais interessante na música local contemporânea é a movimentação da cena. Tem muito produtor arregaçando a manga e fazendo acontecer. Tenho sentido a galera cada vez mais unida pra dar força ao autoral também, a gente meio que faz evento pra artista ver, né? Os músicos crescem muito indo um no show do outro e apoiando nas redes sociais, isso é muito bacana de se ver!

REPÓRTER E: Sobre teu primeiro EP, quero saber como foi o processo de nascimento dele? Das composições à finalização, o que todo esse trabalho te acrescenta como artista?

LÍVIA: A concepção do EP nasceu em 2014 quando gravei meu primeiro single “Café Quentinho”, que é popzão declarado. Eu já sabia que queria abraçar o pop e só faltava achar um diferencial que fosse verdadeiro e coerente com minha personalidade. Depois disso veio “Cor de Rosa’, uma composição mais madura e menos romantizada. Aí dei uma parada e resolvi estudar e ouvir discos por uns meses porque comecei a achar que as composições da gaveta não faziam mais sentido pro que eu tava vivendo e precisava respirar, compor coisa nova. Assim surgiu “Filme Europeu”, que é uma balada, e “Astronauta”, que veio ainda mais pop que Café. Mas eu ainda sentia que tava faltando alguma coisa. Foi quando compus “Bom Conselho”, que já nasceu com a batida folk do violão e o Fabricinho só fez incrementar com o segundo violão. Quando sentamos pra montar o arranjo (eu, ele e meu parceiro de composições Gabriel Monteiro), a música tava linda e pronta! Um amigo sugeriu a gaita e a Camila (Barbalho) executou lindamente. Assim chegamos na sonoridade que eu buscava pro disco como um todo: algo que não soasse ingênuo mas ao mesmo tempo sonhador, que fosse bonito e com conteúdo, mas sem medo de sair do nicho “cult” e abraçar o pop. Ficou do jeitinho que eu queria! ❤

PLAY | “Filme Europeu”, de Lívia Mendes (Dir: Edson Palheta e Marcio Crux)

Todo esse processo me engrandece como artista porque acompanhar uma evolução de si próprio é sempre o melhor aprendizado. Minha banda me ensina muito e gosto de ficar observando eles trabalharem em coisas que saíram da minha cabeça, e ver que tomam forma como se fosse eu arranjando! Eles me entendem e fazem uma leitura sempre bem próxima do que eu quero. De vez em quando rola uma fight, mas sempre chegamos a um consenso. Hehe

REPÓRTER E: Sobre o show do dia 17, terás a companhia de convidados especiais. Qual a participação de cada um na tua trajetória?

LÍVIA: Eu assino a direção geral do show então tudo ali foi pensado por mim com muito amor e orientações do Fabricinho na produção musical e da Camila como consultora geral oficial. Eu queria que o show mostrasse meu EP e também minhas outras caras. Então montei o set com as minhas preferidas e as que já estão disponíveis na web e que sei que agradam o público. Quanto à escolha dos convidados, pensei em ter gente amada no palco comigo e que, ao mesmo tempo, eu admirasse. Ana Clara cantou comigo no meu primeiro show, no projeto Ensaio Aberto Ná Figueredo, o convite a ela é uma lembrança do início da carreira e também uma forma de homenagear todos que estavam ali na época. Camillo é um amigo querido e extremamente importante pra construção do meu trabalho porque foi ele quem incentivou meu namorado a comprar um ukulele pra mim. Hahaha Brincadeiras à parte, chamei o Camillo porque temos uma composição juntos, “A Praça”, que fizemos no ano passado. Já a Lari Xavier foi uma forma de eu representar minha admiração pela cena atual. Ela lançou um EP recentemente que não canso de escutar e representa muito do que eu curto na música indie que vem sendo feita na cidade. Como não a conhecia pessoalmente, achei que seria legal o desafio de me colocar numa parceria de palco com alguém tão importante e influente na música de Belém. Queria aprender com ela, ela topou e ganhei muito com isso! ❤

OUÇA | EP “Lívia Mendes” (2016)

FICHA TÉCNICA

Direção musical: Lívia Mendes
Produção musical: Fabricinho Bastos
Direção Vocal: Sandro Santarém
Baixo: Camila Barbalho
Ukulele e violões: Lívia Mendes
Guitarras e Violões: Fabricinho Bastos e Raphael Guimarães
Bateria e Percussão: Tiago Belém

SERVIÇO | Show de lançamento do EP de Lívia Mendes

Data: Terça-feira, 17/05/2016
Hora: 20h
Local: Teatro Estação Gasômetro (Parque da Residência – Av. Magalhães Barata, 830, entre 3 de Maio e 14 de Abril)
Participações: Ana Clara, Camillo Royalle e Lari Xavier
Ingressos: R$ 10 – Mais informações sobre venda pelo telefone 98364-2725

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5 comentários em “Entrevista: Um café quentinho com Lívia Mendes

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