Sem roupas, sem padrões

Exposição da fotógrafa paraense Heidy Bastos, aberta nesta semana em Portugal, revela o corpo nu como ele é

Gustavo Ferreira

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Foto: Heidy Bastos

Hoje é sábado de Carnaval no Brasil, um dos momentos do ano em que a perfeição estética dos corpos, no sentido mais grego da expressão, é mais exaltada. Os traços harmônicos, a definição dos músculos, o rótulo de “belo” ou “bela”, “gostoso” ou “gostosa”, são um traço da nossa cultura hiperssexualizada. A nudez se torna algo contraditório, dúbio: enquanto o indivíduo se liberta das roupas, se prende ao julgamento dos seus atributos físicos. Pensando em desmistificar esses padrões, essas amarras sociais sobre o corpo, a fotógrafa paraense Heidy Bastos abriu na última quinta-feira (23) em Lisboa, Portugal, a exposição The Bodies Project.

Essa é a primeira mostra individual do trabalho da fotógrafa, que nasceu aqui em Belém, mas vive fora do Brasil desde 2013. Dez modelos foram fotografados nus, homens e mulheres, em um processo que começou em junho do ano passado (quando Heidy ainda vivia na Irlanda, país onde viveu por três anos) e terminou em novembro, já em terras lusitanas. Até o próximo dia 17 de março as fotos estarão expostas na The BlackSheep Art Gallery, em Lisboa (Rua do Sol ao Rato, 45ª).

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Heidy Bastos, fotógrafa. (Foto: Acervo Pessoal)

Essa imersão nas nuances do corpo real são parte de um autoconhecimento, para Heidy. Ao aceitar o próprio corpo, ela passou a enxergá-lo com naturalidade e maturidade, se desnudando dos padrões de perfeição: “Todos os dias somos bombardeados pela TV, jornais e internet com a imagem de corpos perfeitamente modelados, bronzeados, torneados… E, convenhamos, sabemos que isso não existe! Mas ainda assim, compramos essa ilusão”.

 

Com passagens por alguns países da Europa nos últimos quatro anos, a paraense que começou a se apaixonar por fotos ainda criança, com a primeira câmera analógica que ganhou da mãe, e hoje é graduanda do curso de fotografia do Centro de Arte e Comunicação Visual de Lisboa (além de já ser formada em Publicidade & Propaganda e Moda, aqui no Pará), consegue perceber com mais clareza como a nudez é vista em diferentes cantos do mundo. “A nudez no Brasil, é quase sempre coberta com uma aura de sexualidade. Tudo é extremamente erotizado! O que dificulta muito mais para a nossa sociedade a aceitação da nudez como algo natural, como parte da nossa condição animal”, avalia.

Já nos países onde viveu, Irlanda e Portugal, mesmo tão próximos ainda há uma grande diferença entre como o nu é encarado: “apesar de a Irlanda ter sido um país completamente dominado pela igreja católica até bem pouco tempo atrás, sinto que os irlandeses tem a cabeça muito mais aberta para questões de corpo, gênero e identidade do que os portugueses. Eu, por exemplo, precisei me mudar porque o vizinho do prédio em frente reclamou junto à dona do apartamento em que eu morava, porque eu andava nua pelo quarto com as janelas abertas!”, conta Heidy.

GALERIA | Fotos da exposição The Bodies Project, de Heidy Bastos

Ela afirma que, mesmo que a The Bodies Project seja o fechamento simbólico de um ciclo, ela quer seguir explorando e problematizando o corpo humano: “Quero catalogar e fotografar o máximo de corpos possíveis, para que as pessoas que acompanham o meu trabalho desconstruam esse olhar sexualizado que temos sobre o corpo humano e que passem a enxergar a nudez sobre um novo prisma. Menos conservador e o mais natural possível”.

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