Tradição que inspira novos artistas

Exposições mostram releituras de símbolos do Círio de Nazaré, nos traços de artistas visuais da nova geração em Belém

Gustavo Ferreira, com colaboração de Gustavo Aguiar

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Nazikta, criação de Caio Aguiar inspirada em cartazes do Círio.

LogoO Círio de Nazaré é uma das tradições populares mais antigas do Pará. Desde que Plácido, o caboclo, encontrou a imagem de Nossa Senhora num igarapé, nos idos de 1792, Belém ganhou um asterisco em seu calendário. Nesses 225 anos os símbolos do Círio estão presentes nas portas das casas, nas cozinhas, na imprensa, nas ruas, nos nossos olhos… Mas o tempo passa, as coisas naturalmente mudam, se reinventam. Nenhuma instituição passa ilesa às transformações sociais e culturais de um povo. Nem mesmo os símbolos de uma tradição bicentenária. E talvez não haja expressão humana que seja capaz de ser a corda que guia essas ressignificações tão bem quanto a arte.

Caio Aguiar sabe disso muito bem. Aos 22 anos, o artista visual criou uma figura controversa de Nossa Senhora de Nazaré, numa releitura do cartaz do Círio. A peça se chama “Nazikta”, e mostra a imagem como um ser ribeirinho. Não por acaso. “Além de trazer o imaginário amazônico, dos traços, das cores, da mata, do rio, a inspiração ribeirinha é também relacionada ao grande descaso e esquecimento dado a população que mora do outro lado do rio, mostrando a simplicidade da vida e do cotidiano do povo ribeirinho”, reforça Caio.

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Caio Aguiar. (Foto: Gustavo Aguiar/Abajur Estúdio)

Essa peça é mais uma das “Boniktas”, personagens criadas pelo artista de Ourém. Elas são seres de três olhos, partes de insetos ou de peixes, que fogem do real, do belo. São a expressão de um jovem publicitário de formação que bebe da fonte das artes de rua, especialmente do grafitti. “Comecei a fazer uns rabiscos na tentativa de criar algo que me representasse de alguma forma, e daí surgiu a Bonikta, que é um personagem alienígena sem gênero, numa realidade um tanto urbana espacial, tipo um eterno episódio de Doctor Who na Amazônia”.

A repercussão, claro, é dividida entre elogios à ousadia e críticas ao que muitos consideraram uma ofensa à figura de Nossa Senhora de Nazaré. Sobre isso, Caio diz que a polêmica se fez em torno de sua ilustração por ela mexer com religião e tradição, “duas coisas tratadas sempre com conservadorismo e cabeça fechada”, e completa: “Muita gente elogiou e conheceu o trabalho da bonikta de um modo geral, e pirou bastante na Nazikta, mas também houve algumas críticas um tanto sem noção de uns fanáticos religiosos, que me acusaram de deturpar a imagem da santa. Estou rezando por eles. Viva a arte e a liberdade de expressão! (e Fora Temer)”.

A “Nazikta” e os cartazes de mais nove jovens artistas estão expostas gratuitamente na Galeria Azimute, na capital. De acordo com o artista visual e idealizador da Azimute, Almir Trindade, o frescor desses criadores, inspirados especialmente em elementos da cultura urbana local, poderia gerar releituras fora do comum, e que marcar presença no período do Círio é fundamental, pois “O potencial de passar uma mensagem e uma reflexão mais aprofundada sobre o maior símbolo do Círio é maior durante a festividade”.

| A imagem em novas imagens

Outro grupo de criadores também decidiu beber da fonte do Círio. De novo. Os integrantes do Coletivo Argonautas lançaram no último dia 30 a exposição “Círio Ilustrado”, com nove produções inéditas, todas com a imagem de Nossa Senhora representada de maneiras peculiares. Outros ícones da festividade, como pratos típicos e brinquedos de miriti, estão presentes também. Sempre em tom de novidade.

“Como todos nós somos paraenses, o Círio está presente nas nossas vidas desde crianças. Todo ano nós fazemos ilustrações da Santa. A festa é tão rica culturalmente que sempre tem um detalhe diferente que a gente pode se inspirar”, diz a artista visual Renata Mello Segtowick, que faz parte do Argonautas.

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Renata Mello Segtowick. (Foto: Acervo Pessoal)

Essa é a terceira exposição do grupo, formado por nove ilustradores. As outras duas foram “Tentáculos”, em 2015, e “Em Cartaz – Uma releitura ilustrada de cartazes do cinema paraense”, em 2016. A exposição “Círio Ilustrado” está aberta no Boulevard Shopping, e é uma chance de o público perceber outras nuances do maior evento da cidade e do Estado.

“O Círio faz parte da história da gente. Mais que um evento religioso, é um evento cultural. É forte a energia que sentimos circular. As casas emanam o cheiro da maniçoba e do pato no tucupi, as famílias confraternizam, recebendo os familiares e amigos que vêm de fora, fora o colorido que a cidade ganha nessa época, que é encantador”, destaca Renata.

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Exposição está aberta no Boulevard Shopping, em Belém. (Foto: Gustavo Ferreira)

| Serviço

MOSTRA COLETIVA DE CARTAZES DO CÍRIO
Período: de 21/09 a 12/11
Local: Galeria de Arte Contemporânea Azimute – Vila Container (Av. Magalhães Barata, 62, entre 14 de Março e Alcindo Cacela)
Horário: De 9h a 20h (segunda a sábado) e 9h a 14h (domingo)
Entrada Franca

EXPOSIÇÃO “CÍRIO ILUSTRADO”, DE COLETIVO ARGONAUTAS
Período: de 30/09 a 15/10
Local: Boulevard Shopping – 3º piso (Av. Doca de Souza Franco, 776, entre Ó de Almeida e Aristides Lobo)
Horário: De 10h a 22h
Entrada Franca

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