Conectando rios e gente

Associação Ame o Tucunduba nasceu da vontade de religar as pessoas aos rios de Belém, suas histórias e sua importância para a vida da cidade.

Gustavo Ferreira

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Foto: Sandro Barbosa

PROJETO MOVENTE_Marca ColoridaOs rios de Belém são uma das características mais fortes da nossa identidade. Essa relação “humanofluvial” virou poesia, virou música, é paisagem de fim de tarde, é traço constituinte de cada um de nós. Somos um povo ribeirinho. E talvez a gente nem saiba quantos caminhos de água correm por aqui, além do rio Guamá. Por exemplo, existe um rio que, há setenta anos, começou a receber influência humana. Ocupação, reorganização, desvios, canalizações. O Tucunduba, cuja bacia hidrográfica é a segunda maior de Belém – são oito quilômetros quadrados de área – e cujas águas se espalham por sete bairros, e que mesmo assim precisou se reencontrar com quem vive dele, ou mesmo com quem passa por ele sem tanta atenção. Com essa premissa, de reconectar as pessoas aos rios de Belém, nasceu em 2016 a Associação Ame o Tucunduba (AME).

Esse projeto surgiu da inquietação de um grupo de mulheres, durante uma oficina cujo objetivo era buscar soluções para problemas hídricos nas cidades. Em Belém a oficina, realizada pela ONG FA.VELA, foi realizada na Terra Firme, bairro que se confunde com o próprio rio Tucunduba. E uma das primeiras pessoas a acreditar na ideia foi, justamente, alguém que se define como cria do bairro: “quando a AME surgiu eu estava no último ano da graduação em Oceanografia, um curso que se aprende tudo sobre rios. Minha rotina incluía passar todos os dias de ônibus por cima do Tucunduba, e minha única percepção é que ele era um esgoto”, lembra Micaela Valentim, de 22 anos.

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Micaela. (Foto: Acervo Pessoal)

Hoje Micaela, de 22 anos, já concluiu a graduação e cuida da comunicação e das finanças da associação, e mais do que nunca acredita que houve um descompasso histórico nessa ligação entre os rios e a cidade, as pessoas: “o que nós percebemos é que as pessoas não reconhecem os rios urbanos espalhados na cidade. E isso acontece por conta do processo de urbanização de Belém que aos poucos foi nos afastando do contato com esses rios”.

Só a bacia do Tucunduba tem mais de catorze mil metros de extensão em rios e canais urbanos. É muita água, que passa por muita gente. Dos sete bairros que compõem a bacia, dois são os mais populosos da cidade: Guamá (94.610 habitantes, segundo o IBGE) e Terra Firme/Montese (61.439 habitantes, segundo o IBGE). “Hoje, pra AME, esse rio é um espaço de educação. Nós partimos do princípio de que você só ama aquilo que você conhece. Então, como projetar a reconexão das pessoas com esse rio se elas nem ao menos conhecem esse gigante que está dentro da cidade? E sabemos que não é um processo fácil”, pondera Micaela.

A AME busca promover a integração de tanta gente ao ecossistema fluvial, estimula a busca pelo conhecimento sobre o rio, e faz isso por meio de algumas atividades de imersão pela realidade socioambiental do entorno do Tucunduba. Uma delas é a Expedição, um ciclo de eventos, que começa com um curso intensivo sobre água, saneamento básico, rios urbanos e cartografia social, e culmina em uma visita guiada pela extensão do rio na cidade.

Em cinco edições, 123 pessoas de 14 a 59 anos já participaram do evento, que é aberto ao público em geral, com apoio do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (IG-UFPA) e do Museu Emilio Goeldi. Ao final, os integrantes da AME pedem feedbacks dos participantes das expedições. Algumas respostas foram:

“Foi uma experiência muito rica. Possibilitou ver o rio de outra forma.”

“Bem proveitosa, pois eu nem imaginava o tamanho do rio Tucunduba e quais seus caminhos, passo sempre pela Angustura e nem imaginava que ali fica sua nascente.”

“Gostei muito de ver quase todas as faces do Tucunduba. Muito interessante.”

Além das expedições, a associação realiza um outro projeto que movimenta as comunidades do entorno do Tucunduba, o Faça Você Mesmo, como explica a diretora de captação de recursos e uma das fundadoras da AME, Juliana Cardoso: “O FAÇA mobiliza pessoas a serem protagonistas do desenvolvimento da sua comunidade, através de ações de revitalização e ativação de espaços ociosos nas margens do Rio Tucunduba, estimulando a regeneração desses espaços”. Desde dezembro de 2016 já foram 14 edições, que tiveram como resultado a revitalização de uma área na Avenida Celso Malcher, que era um grande descarte de lixo, além da criação de hortas comunitárias, mutirões de limpeza, rodas de conversa e outras ações.

Todas essas iniciativas, concebidas de forma absolutamente voluntária, também começam a render outros frutos. Em março deste ano, a AME foi uma das 43 ideias selecionadas em um edital da Brazil Foundation, organização que angaria fundos para o desenvolvimento de projetos sociais no país. A AME entrou com o Fala Tucunduba: “O FALA é um projeto de mobilização, educação e capacitação para participação social na gestão de recursos hídricos da bacia hidrográfica do rio Tucunduba. Para que cada vez mais jovens periféricos assumam a liderança da transformação local e contribuam em prol da melhoria da gestão de recursos hídricos da região, o projeto visa oferecer capacitação sobre educação, participação social, planejamento e gestão de águas para 20 jovens entre 18 e 35 anos, provenientes de bairros periféricos”, diz Juliana. O Fala Tucunduba está na fase de planejamento.

 

A associação quer mudar olhares. O de Micaela, a “cria da Terra Firme”, foi completamente transformado, com relação ao rio por onde passava todos os dias. Uma relação nova, que começou junto com a AME. Uma relação de amor e engajamento social: “Minha jornada na ame transformou meu olhar sobre a cidade, rios urbanos, e forma na qual eu interajo com esses espaços. Além disso, me fez entender que a transformação parte do protagonismo de cada um e cada uma para liderar e/ou colaborar com soluções para problemas da cidade. Todos os dias eu me apaixono mais pelo Tucunduba e por todos os desafios que ele nos propõe”.

Para Juliana não é diferente. Ver o rio passou a ser uma obrigação, e ao mesmo tempo abriu horizontes, mostrou que por eles corre vida, a vida da cidade, e que ela precisa dessas águas para seguir, assim como as águas precisam de cada pessoa para sobreviverem e serem o início de uma grande mudança social: “Agora mais do que nunca, enxergo o rio Tucunduba e tantos outros rios urbanos que foram canalizados como espaços de oportunidade para a construção de uma cidade mais sustentável e inclusiva”.

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Micaela (seguda da esquerda para a direita), Juliana (quarta da esquerda para a direita) e a equipe que faz a AME. (Foto: Denys Costa)

SERVIÇO | Associação Ame o Tucunduba

Para saber mais detalhes do trabalho da associação, e como você pode fazer parte, basta entrar em contato:
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E-mail ameotucunduba@gmail.com
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